quarta-feira, 9 de março de 2011

Domingo


Muitos considerariam esse dia bonito e feliz.
É aquele dia que vem à mente das pessoas quando idealizam um típico dia de verão.
Enquanto o Sol brilha lá fora, esse homem deixa-se cair sobre as almofadas do sofá.
Olha para o teto procurando formas de rostos nas imperfeições da laje pitada de branco.
Pensa em dormir um pouco, mas seus olhos teimam e manter-se abertos. O sono o abandonara há várias horas.
A TV ligada apresenta interferências, mas ele não se importa, não está prestando atenção.
Suas contas estão pagas.
Ele sabe, há muito o que fazer. Imagina a grande variedade de coisas que poderia fazer se saísse de casa agora. Mas não sai.
Não se mexe.
Um poço de tranquilidade.
Nada o anima.
Mais um dia perdido entre essas almofadas.
O suor desce devagar em sua testa.
O tempo passa devagar.
O mundo está mais lento hoje.
Parece que respira só o suficiente para manter o sangue circulando.
Calmo.
Abraça o ócio e espera. Espera por nada.
Não é mais um homem, é um objeto que decora a sala.
Não vive, vegeta.

terça-feira, 8 de março de 2011

Àquela de tantos abandonos



Querida amiga,
Sinceramente, não acredito que você seja a causa da minha tristeza, mas não tenho dúvida que você é a mais assídua colaboradora da minha sorte.
Na solidão deste quarto posso ainda embalar-me em bons pensamentos e esquecer, por instantes, essa dor que você já conhece, com uma porção de imagens ilusórias.
Quando estamos juntos e, em meu peito, você chora suas angústias, lamenta o amor e relembra suas alegrias passadas, a tristeza corrói meu ser de tal maneira que é difícil perceber o chão sob meus pés.
Saber que suas boas lembranças são de um tempo em que você esteve distante, enquanto eu, neste mesmo quarto, dirigia meus pensamentos na sua direção.
Saber que a sua alegria significa o meu abandono, seu sorriso minhas lágrimas, suas lágrimas minhas angústia.
Saber que nessas linhas te suplico para me tomar nos braços com um pouco de ilusão e fugir dessa realidade amarga que nos envolve, e você jamais colocará seus olhos nessas palavras.
Amigos para sempre, pois para sempre te amarei. E, para sempre, esconderei dos teus sentidos o quão infeliz você me faz.

Miguel Gonzales

Amor de mãe

Ouço muito falar nesse tal amor de mãe.
Um amor insubstituível.
Amor maior.
É comum ver presidiários com a frase “Amor só de mãe” tatuada em seus corpos.
Algo divino, acima de todos os outros sentimentos.
Mas, minha mãe jamais me amou assim.
Ela me rejeitou a vida toda e, ainda hoje, me trata diferentemente dos filhos de seu segundo casamento.
Por muito tempo pensei ter sido privado desse amor.
Mas amor de mãe nem sempre vem das mães.
Vem de pais, avós, irmãos, tios, padrinhos, de desconhecidos distantes que se esforçam pra te dar uma ajudinha na vida.
Pra mim esse amor vem do meu pai, a melhor mãe que eu poderia ter.

Eu fico

Eu não vou sair daqui
Firmo meus pés nesse chão
que é meu por direito
Eu não vou sair daqui

Você está em dívida?
Você é culpado?
Se for, faça-lhes a vontade
e continue se movendo

Mas eu não vou sair daqui
Minha culpa é ser livre
Não vou recuar
Não vou fugir

Se eu andar, será pra frente
Em frente pra enfrentar
quem, à força, quer calar
a voz, a poesia, a mente

Tenho meus pés calcados
nessa terra dura
Onde maldade e censura
atacam por todos os lados

E nessa hora em que me mandam sair
Minha cara está aqui para bater
Finco minhas raízes para dizer
Que não vou sair daqui.

Miguel Gonzales

Você não diz

Ouço suas palavras. Dizem que sou um cara legal, uma boa compania, até bonito. Que gosta muito de mim, que mereço ser feliz, que sou especial, ao menos pra você. Você diz que eu devo ter paciência, que um dia vai aparecer na minha vida alguém que me mereça, alguém que goste de mim, alguém que me ame. Diz que não entende como um cara com todas as minhas qualidades ainda não está fazendo a felicidade de alguém, mas que esse alguém irá aparecer.
Porém, não é você.
Você não diz, mas age como se fosse indigna de estar ao lado de um homem como eu. Ignorando meus sentimentos e desejos, não importam quais.
Você não diz, mas...não quer estar comigo.
Pois você quer estar com ele.
Ele...que te faz feliz, a quem você faz feliz.
Que faz seu sorriso iluminar o ambiente e seus olhos cintilarem.
Ele que é ótimo com as palavras e sempre fala o que você quer ouvir. Te completa. Com elogios e declarações que fazem seu coração trepidar.
Ele que é um anjo. Que lhe dá segurança e sonhos preguiçosos.
Ele que é lindo.
Então, você está feliz.
Você está linda, de mãos dadas, passeando numa brisa fresca. Acorda pela manhã e é invadida por pensamentos alegres, esperançosos. Ansiosa para que o tempo passe logo e você possa estar ali sentada ao lado daquele que tanto te adora.
Suas vidas começando....planos para o futuro...sorrisos abertos e sinceros...o peito cheio de vida e amor.

E quanto a mim?
Devo esperar a chegada de alguém que não me diga que outro alguém um dia irá chegar? Reprimir o que sinto agora para dar chance a "pessoa certa"?
Neste momento...e quanto a mim?

Miguel Gonzales

domingo, 6 de março de 2011

A Fênix


A fênix é um enorme pássaro da mitologia grega que quando morria entrava em autocombustão e passado algum tempo renascia das próprias cinzas.
A origem vem dos desertos da Líbia e da Etiópia. Seu nome prove do grego “phoinix” que significa “vermelho”. A Fênix foi considerado por gregos e egípcios como um semideus, e segunda a lenda, este ser se consome em suas próprias chamas a cada 500 anos, para mais tarde renascer de suas próprias cinzas como um fênix jovem e novo.



Acusações

"Apenas três anos de idade
E não podia parar de chorar
Por isso, o pai passou noites em claro
E o acusaram de dar trabalho

Enfermidade tomando seu corpo.
O conselho: deixe-o ir
Para aliviar o sofrimento (de alguém)
Talvez ele devesse mesmo dormir

Mas o acusaram de dar trabalho
Mas o acusaram de dar trabalho




Correu metade da cidade
Chegou, mas era tarde.
O corpo desceu, as lágrimas não.
E o acusaram de insensível

Doze anos e a vontade de chegar
Para dizer um último adeus
-Perdão, não corri rápido o bastante.
-Meu querido irmão, eu não consegui.

Mas o acusaram de insensível
Insensível, insensível, insensível.




Sentado à espera do professor
Alerta-o sobre a situação
Um impacto em seu corpo, passos para fora
E o acusaram de violência

Sua saúde, a vergonha, a humilhação.
Não podia permanecer ali
Não foi ouvido, ignorado, proibido.
Trancado, à força libertou-se.

E o acusaram de violência.
“Isto é violência!”. Isto é violência?


Dezessete anos e um amor próprio.
Sua escolha: mudar o rumo da vida
Arrancar de si o incômodo de longos anos
E o acusaram de egoísmo.

Cotidiano de lágrimas incessantes
Sofrimento escondido, sentado no chão do banheiro.
Calado, nervoso, estremecia e lamentava.
Sozinho para não afetar quem amava

E o acusaram de egoísmo.
Não, por favor, egoísmo não.



Mais um Outono e o telefone toca.
Distante, uma mãe quer lhe falar.
Jamais retornou.
E o acusaram de ser um mau filho

Ela já se fora há tanto tempo
Para uma nova família, uma nova vida.
Ele é um passado remoto.
Não foi a escolha dela

E o acusaram de ser mau filho
Um mau filho, o filho mau.






Uma sombra correndo pela noite
Questionamentos e lágrimas
Separação inevitável e dolorosa
E o acusaram de não amá-la

Diálogo já não havia
Sem sorrisos, nem mesmo um olhar.
Noites e noites dedicando-se
A pensar numa maneira de conseguir uma palavra

Mas o acusaram de não amá-la
-Como eu poderia não amá-la?

-Que tipo de monstro sou eu?"

Miguel Gonzales